Olho fotos grudadas no espelho,
fotos antigas, de muito tempo e me vejo pequena. Nas fotos, sou eu, sei que sou
e estou uma graça suja de sorvete de chocolate. Gosto de me ver antes de
adquirir inteligência.
Agora, nem sei mais o que sou.
Mudei, mudei e mudei, e o que aconteceu? Olho bem pra mim e fico imaginando o
que sou. Se nem eu sei, imagine meus pais. Eles são quem mais reclamam pois
mudei. Pra falar a sã verdade, eu nem sei por quê mudei. Não sei se é a
adolescência, a pressão ou se é o que sou realmente.
Sempre fui uma nerd, na verdade,
fui criada para ser assim. Sempre fui a garota inteligente, boazinha e
estudiosa. No começo, me sentia bem, mas com o passar dos anos, fui pensando se
era isso mesmo que eu queria. Fui vendo as outras “classes” juvenis. Não me
encaixei com as patricinhas pois tinha preguiça de passar maquiagem, não virei
muleca macha pois detesto essas coisas masculinas, não virei barraqueira pois
detesto humilhar, o que me sobrou foi
roqueira, o que me caiu bem pois o preto me deixa com um corpinho de modelo,
troquei os óculos por lentes de contato e assim ficava mais prático pra tudo. O
som pesado do rock me deixa relaxada, o que é muito estranho.
Voltando a meus pais, eles
detestam essa mudança repentina. Criaram uma intelectual e da noite para o dia
a bonequinha com capacidade cerebral igual à de um computador vira uma roqueira
rebelde e sem noção que começou a tomar bomba no boletim.
Não queria ter mudado. Peço para
voltar a ser uma nerd, assim teria paz interior e exterior, mas já estou
acostumada a ser a garota rock n’ roll que chama muita atenção por onde passa.
Não sei se viraria nerd de novo, era divertido, mas eu era pisada por todos os
“grandes” mais conhecidos por ”populares”.
Meu pai pediu que eu tirasse os
pircing, as mechas do cabelo e voltasse a usar as roupas de antigamente, as
roupas que olho hoje e penso o tão cafona que eu era. Já cheguei a chorar por causa disso, por não
saber responder a pergunta mais simples do mundo, “quem sou eu?” Não sei
responder de jeito algum.
Outro dia, minha mãe me levou ao
psicólogo. Dentro de um classificador antigo haviam fotos de mim antes e depois
da mudança. Ela estava decidida que o psicólogo me ajudaria. Chegando ao
consultório, deitei naquelas cadeironas e fiquei conversando com ele. Só haviam
eu e o doutor Jaques na sala. Ele falou que essas mudanças eram normais e tais
e que eu que devo escolher o que devo ser. Cheguei em casa e decide que era
melhor ser assim, pois é assim que sou e me sinto bem. Antes eu achava que me
sentia bem pois era o agrado de meus pais. Ser inteligente me deixa feliz, mas
ser quem sou é muito melhor.
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